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Hare Krishna

Foto do escritor: Erick Xavier
Erick Xavier
28 de ago.
3 min de leitura

Era domingo e estávamos na Redenção, eu, meu namorado e nosso cachorro. O céu de Porto Alegre estava ensolarado, um daqueles dias em que a cidade parece ter acordado de bom humor.


Passávamos pela segunda vez na parte de antiguidades. Eu tenho um método: primeiro olho tudo, depois volto comprando aquilo de que gostei. É uma atividade prazerosa pra mim e profundamente cansativa pra qualquer pessoa que cometa o erro de me acompanhar.


Foi quando um homem nos parou. Vestia uma túnica que parecia um lençol muito bem enrolado, tinha um símbolo vermelho pintado na testa, a cabeça raspada e uma pequena trança atrás. Nas mãos, carregava livros sobre a religião hindu. Nos pés, um Air Force da Nike.


Ele começou a nos falar sobre desapego. Contou sobre seu mestre, sobre a necessidade de abandonar os excessos e sobre como o ser humano não precisa de bens materiais para ser feliz. Enquanto ele falava, eu olhava para o tênis e para o iPhone laranja em sua mão. Talvez alguns bens materiais ajudem.


Ele explicou que não vendia os livros. Os livros eram oferecidos em troca de uma doação. A doação tinha valor definido. Comprei um. Quer dizer, ganhei um livro depois de fazer uma doação espontânea no valor exato solicitado. Junto do Bhagavad-gītā veio um pequeno convite para um encontro no templo Hare Krishna. Seria naquela mesma noite. Eu já tinha ouvido falar do lugar por uma amiga de uma amiga que fazia parte da comunidade. E, apesar do que esse texto possa sugerir, eu estava genuinamente interessado.


Sempre gostei de religiões antigas e de pessoas excêntricas. Além disso, existia alguma coisa esteticamente impecável naquele Hare Krishna. Um ar meio monge fashion que me agradou.


Decidi que iria. Convidei meu namorado. A resposta começou com “n”. Discutimos. Eu disse que ele nunca me acompanhava nas coisas de que eu gostava, que aquele seria um momento espiritual importante e que, se ele não quisesse ir, eu iria sozinho. Essa última frase tinha muito mais coragem do que eu.


Eu sou um bicho bastante solitário e gosto disso. Posso passar dias perfeitamente satisfeito no meu isolamento. Mas basta precisar sair sozinho para que minha independência desapareça de forma humilhante.


Eu não conhecia o bairro onde ficava o templo. O tempo ameaçava virar. E, como toda pessoa ansiosa, eu já tinha imaginado uma sequência razoavelmente detalhada de tragédias envolvendo Uber, ruas desconhecidas e minha possível morte em algum lugar da zona norte. Mesmo assim, eu fui.


Àquela altura eu já estava obcecado pelos Hare Krishna. Passei a tarde pesquisando a religião, ouvindo mantras e lendo sobre a Índia. Criei até uma pasta no Pinterest. Na minha cabeça, eu chegaria ao templo e seria recebido com música. Pessoas dançariam. Alguém perceberia imediatamente que havia em mim alguma antiga predisposição espiritual e me convidaria para ficar. Eu encontraria um guru e seria batizado com um novo nome. A partir daquela noite eu seria Erick Sarasvati. Rasparia a cabeça e aprenderia sânscrito.


Vesti minha melhor roupa boho-hippie-hindu. Chamei um carro. No instante em que coloquei o pé para fora da portaria, começou a chover. Entrei no Uber e seguimos em direção à minha nova vida.


O motorista era educado. Conversamos pouco. Quando o carro parou, olhei pela janela e percebi que alguma coisa não estava certa. O pior pesadelo de uma mente ansiosa tinha se concretizado. Eu coloquei o endereço errado. Desci mesmo assim.


Estava começando a ficar molhado pela garoa e ligeiramente menos iluminado. Talvez Erick desistisse ali. Mas Erick Sarasvati jamais.


Chamei outro carro. Quando finalmente cheguei ao endereço certo, já estava escuro e chovia bastante. O templo ficava num bairro boêmio, cercado por bares e restaurantes. E ali estava ele. Do lado de fora, através de uma grande janela, eu conseguia ver o salão. Paredes vermelhas e amarelas, flores, imagens de deuses. Pessoas cantando, dançando e tocando instrumentos.


Era exatamente como na minha fantasia... Havia apenas um pequeno problema. O portão estava trancado.


Toquei a campainha. Esperei. Toquei novamente. Depois uma terceira vez. Na décima, já não havia prana suficiente dentro de mim para sustentar aquela experiência. Ninguém veio.


Do outro lado da janela, os devotos continuavam cantando. Eu estava ensopado, congelado e furioso. Me senti barrado na porta do céu. O meu novo destino espiritual, construído cuidadosamente ao longo das últimas cinco horas, estava sendo destruído por um grupo de hippongos que cantava tão alto que não conseguia ouvir alguém chamando do lado de fora.


Voltei pra casa. Humilhado. Chorei de raiva. Vivi o luto de uma religião à qual nunca pertenci e de uma identidade que nem chegou a nascer. Antes de dormir ainda havia em mim uma pequena chama de esperança.


Tudo bem, pensei. Talvez eu não tenha conseguido entrar no templo, mas pelo menos tenho o livro.


Peguei o Bhagavad-gītā. Abri. O livro era inteiro em sânscrito. Não entendi uma única palavra. Hare Krishna.

 
 
 

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